[ Amadurecer ]



[ a ma d u r e c e r]

Amadureço enquanto ele também amadurece, nós dois precisamos. 
A gente não nasce mãe, a gente se torna mãe. Eles nascem filhos, mas nós não nascemos mães.
Ninguém nos diz como vai ser. Ninguém nos diz que vamos sentir um amor tão intenso que chega a doer, ninguém nos diz que vamos sentir tudo mais intensamente do que antes, que o coração para muitas vezes (não no sentido literal da palavra). Ninguém nos diz que vamos perder a razão quando fazem algo ruim para nossa criança, e que vamos ter que lutar diariamente para aprender a conversar.  Muita gente nos diz como vai ser, mas ninguém consegue traduzir todas essas sensações em palavras.
Enquanto ele aprende a socializar com o mundo, eu aprendo a socializar também, eu não sei mais o que eu achava que sabia. Eu não sei controlar meus instintos e manter a calma quando ele sofre alguma injustiça, tenho um dia positivo na matrescência e três negativos. Tenho tido reações diversas em diferentes situações e tenho tentado aprender qual o jeito certo de lidar com cada situação. Às vezes me sinto um caranguejo andando para trás e perdendo meu próprio progresso. Ao mesmo tempo noto ele progredindo em suas relações, amadurecendo, convivendo, aprendendo. Mas para mim é difícil.  Tenho tido angústias exageradas.
Já me disseram que ele vai aprender a lidar com as injustiças sozinho, mas isso parece demorar demais:
- o amigo pede a bicicleta emprestada, mas não convida ele para brincar e ele vai atrás do amigo mesmo assim;
- o amigo convida para brincar só para poder brincar com os brinquedos dele e quando não se deixa, o amigo brinca com outras crianças ao invés de brincar com ele;
- o amigo manda ele comer terra e ele come e quando questionado esconde a verdade para proteger o “amigo”.
É difícil explicar que não são atitudes corretas. Que ele não deve se submeter a essas coisas.
Essa semana acreditei ter descoberta a solução. Me dei conta que muitas vezes estou trabalhando muito e ele vem falar comigo, acabo o ignorando com palavras como: agora não posso, espera, depois, mais tarde, etc. Então pensei, não vou mais fazer isso, por mais ocupada que esteja vou parar o que estiver fazendo e atende a um chamado. Fiz isso por dois dias e acreditei em um pleno sucesso, notei ele mais despojado na rua brincando com as crianças, mais confiante, mais destemido e confiável até hoje, até hoje quando ele comeu terra e eu surtei, e com isso dois dias de progresso viraram zero... Comecemos novamente!
Ele trabalha do jeito dele para ser aceito. Ele quer ser aceito. Ele não sabe como ser aceito. 
Eu quero que ele tenha confiança em si mesmo, que não sofra injustiças, que saiba diferenciar o bem e o mal, a amizade verdadeira, que ele saiba se defender dentro da medida do possível. Não sei como acertar todas essas coisas com ele sem ser opressora, não quero que ele se sinta oprimido.
Ninguém conta pra gente que ser mãe é sofrer por nossos erros enquanto ensinamos uma criança, criança que sofre as consequências de quando erramos e tentamos acertar, ela sofre as consequências enquanto tentamos descobrir o meio termo para tudo isso...



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